A actividade cinegética gera naturalmente desconforto e opiniões extremadas. No entanto, em determinadas reservas privadas africanas, a caça regulamentada integra um modelo de gestão da fauna, financiamento da conservação e criação de emprego. Compreender este sistema não significa ser a favor ou contra. Significa aceitar que a realidade é mais complexa do que uma fotografia publicada nas redes sociais.
Uma imagem de um animal abatido provoca uma reacção imediata. Para muitas pessoas, é difícil compreender como a morte de um animal pode, em determinadas circunstâncias, contribuir para a preservação de uma espécie ou para a manutenção de uma área de conservação.
Essa reacção é legítima. No entanto, analisar esta questão apenas a partir da imagem final significa ignorar tudo o que existe antes e depois daquele momento: a criação da reserva, a recuperação do habitat, a reprodução dos animais, a vigilância contra a caça furtiva, o trabalho dos guardas, a manutenção dos pontos de água, o acompanhamento veterinário, o alojamento dos visitantes e os empregos gerados nas comunidades próximas.
Não sou defensor nem opositor da caça. Aprendi, desde muito cedo, a procurar compreender os diferentes pontos de vista antes de formar uma opinião.
Entre 1999 e 2002, trabalhei no Grupo Monfortur, em Monfortinho, Portugal, onde a actividade cinegética tinha um peso económico relevante.
Movimentava receitas consideráveis e sustentava postos de trabalho relacionados com o alojamento, a restauração, os guias, os transportes, a manutenção das propriedades e diversos outros serviços.
Essa experiência permitiu-me compreender que a caça organizada e regulamentada é muito diferente da caça furtiva ou do abate indiscriminado de animais. Existe toda uma actividade económica e uma estrutura de gestão que não são visíveis numa fotografia partilhada nas redes sociais.
Muitas das reservas privadas onde hoje existem animais selvagens foram criadas, recuperadas ou ampliadas porque os seus proprietários encontraram na fauna uma utilização económica capaz de justificar a conservação da terra.
Para transformar uma propriedade numa reserva é necessário investir na recuperação do habitat, na introdução ou reintrodução de espécies, na disponibilidade de água, na segurança, no controlo sanitário e na gestão permanente das populações animais.
É necessário manter guardas, técnicos, trabalhadores, equipamentos, viaturas, alojamentos, vias de acesso e sistemas de vigilância. Tudo isso representa custos permanentes, mesmo durante os períodos em que não existem visitantes.
A actividade cinegética não deve começar simplesmente porque existem alguns animais numa propriedade.
Numa reserva correctamente gerida, a prioridade inicial é permitir que as populações se reproduzam e atinjam níveis biologicamente sustentáveis. Antes de ser autorizada qualquer utilização cinegética, devem ser considerados os inventários da fauna, a capacidade ecológica do território, a disponibilidade de água e alimento, a estrutura etária, o número de machos e fêmeas e a capacidade de reprodução de cada espécie.
Só depois de existir uma população estável poderá ser determinada uma quota de utilização que não comprometa a continuidade da espécie dentro da reserva.
Isto significa que não se pode retirar da natureza aquilo que a própria população não consegue repor. Uma gestão responsável deve garantir que o número de animais abatidos permanece abaixo da capacidade anual de recuperação da população.
A caça, por si só, não constitui conservação. O seu eventual contributo depende da forma como é praticada, regulamentada e fiscalizada.
Quando existe uma gestão séria, as receitas obtidas através de um número limitado de licenças podem financiar a protecção de extensas áreas naturais durante todo o ano.
Essas receitas podem pagar guardas, combater a caça furtiva, manter vedações e pontos de água, apoiar as comunidades próximas e atribuir valor económico aos animais que, de outra forma, poderiam ser considerados apenas uma ameaça às culturas agrícolas, ao gado e à segurança das populações.
Nem todas as reservas privadas foram criadas exclusivamente para a caça. Algumas vivem principalmente do turismo de observação, enquanto outras combinam safáris fotográficos, alojamento, reprodução de animais, investigação, educação ambiental e actividade cinegética.
Existem também territórios onde o turismo convencional dificilmente consegue gerar receitas suficientes. Isso acontece sobretudo em zonas isoladas, com acessos difíceis, pouca infraestrutura turística ou baixa densidade de animais facilmente observáveis.
Nesses locais, a actividade cinegética pode gerar receitas com um número reduzido de visitantes, enquanto o turismo de observação normalmente exige um volume muito maior de turistas para alcançar resultados semelhantes.
Na Namíbia, por exemplo, o turismo de observação e a caça regulamentada funcionam conjuntamente em várias áreas comunitárias de conservação.
Um estudo realizado em 77 áreas comunitárias de conservação concluiu que as duas actividades proporcionavam benefícios complementares. O turismo gerava mais postos de trabalho, enquanto a caça proporcionava receitas directas e carne, incluindo em territórios menos procurados pelos turistas convencionais.
O próprio Ministério do Ambiente, Florestas e Turismo da Namíbia reconhece a caça regulamentada como uma das fontes de rendimento utilizadas nas áreas comunitárias para apoiar a gestão da fauna e as actividades de combate à caça furtiva.
Uma reserva vedada ou intensamente gerida não funciona exactamente como um ecossistema completamente aberto.
Em muitos destes espaços, os grandes predadores desapareceram, foram reduzidos ou não podem existir em quantidade suficiente. As antigas rotas de migração também podem estar interrompidas por estradas, cidades, explorações agrícolas, propriedades privadas e vedações.
Como consequência, determinadas espécies podem reproduzir-se até ultrapassarem a capacidade do território para disponibilizar água, alimento e espaço.
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Sem predadores naturais, migrações ou outros mecanismos de regulação, uma população em excesso não desaparece sem sofrimento. Pode provocar a degradação da vegetação, a escassez de água, a propagação de doenças, conflitos com as comunidades e a morte de animais por fome ou durante os períodos de seca.
Nestes casos, a gestão pode envolver a transferência de animais para outras reservas, medidas de controlo reprodutivo ou, quando estas soluções não são possíveis ou suficientes, o abate selectivo.
Em alguns modelos, uma licença paga permite realizar parte desse controlo populacional e, ao mesmo tempo, financiar a manutenção da própria reserva. No entanto, esta decisão deve resultar de dados técnicos e não apenas do interesse comercial do proprietário.
Nos países onde esta actividade é permitida, a caça deve obedecer a regulamentos, épocas específicas, licenças, quotas, identificação das espécies e acompanhamento por profissionais habilitados.
Quando estão envolvidas espécies abrangidas por mecanismos internacionais de protecção e controlo comercial, também podem ser aplicáveis as regras da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, conhecida como CITES.
Uma quota responsável não deve corresponder ao número de animais que o proprietário pretende comercializar. Deve representar apenas aquilo que pode ser retirado sem comprometer a reprodução, a diversidade genética e a sobrevivência da população a longo prazo.
Perante a imagem de um animal abatido, a pergunta não deve ser apenas: “Por que razão mataram este animal?”.
Para compreendermos o que aconteceu, também precisamos de saber se a espécie podia ser legalmente caçada, se existia uma licença, se havia uma quota cientificamente fundamentada, qual era o estado da população na reserva e se o animal correspondia ao sexo e à idade autorizados.
É igualmente importante conhecer o destino da carne, a utilização das receitas, os benefícios para as comunidades e a existência de fiscalização independente.
Sem estas respostas, tanto a condenação imediata como a defesa automática podem estar baseadas em informação incompleta.
É fundamental distinguir a caça regulamentada em populações selvagens da chamada canned hunting, na qual os animais são criados ou mantidos em áreas limitadas, frequentemente habituados à presença humana, e abatidos sem uma verdadeira possibilidade de fuga.
Também não podem ser confundidas com conservação práticas como a caça furtiva, a corrupção na atribuição de licenças, o incumprimento das quotas, o abate de animais reprodutores importantes ou qualquer sistema no qual as receitas não contribuam efectivamente para a gestão do território e para as comunidades locais.
A existência de benefícios potenciais não elimina os riscos. Uma actividade mal fiscalizada pode causar sérios prejuízos às populações animais e à credibilidade dos próprios projectos de conservação.
É frequente afirmar-se que, sem a caça, as reservas continuariam a existir exactamente da mesma forma. Em alguns locais isso poderá acontecer, especialmente onde o turismo fotográfico é forte, regular e financeiramente rentável. Noutros, provavelmente não.
Se a fauna deixar de produzir qualquer benefício para os proprietários e para as comunidades, aumenta o risco de a terra ser convertida para agricultura, pecuária, exploração mineira ou outros usos incompatíveis com a conservação.
Nesse cenário, não desaparece apenas o animal que poderia ser caçado. Pode desaparecer o habitat e, com ele, todas as espécies que dependem daquele território.
Não é rigoroso afirmar que todas as reservas africanas dependem da caça. Mas também não é correcto ignorar que algumas apenas conseguem manter os seus territórios, trabalhadores e programas de conservação através da combinação entre turismo, actividade cinegética e outras fontes de rendimento.
A União Internacional para a Conservação da Natureza reconhece que a caça pode, em determinadas condições, criar incentivos para a conservação. Contudo, esse contributo depende da sustentabilidade biológica, da boa governação, da fiscalização e da existência de benefícios reais para a natureza e para as comunidades.
Este é um tema que não deve ser analisado através de frases fáceis ou de reacções produzidas apenas pela emoção de uma imagem.
Uma pessoa pode considerar moralmente inaceitável matar um animal por recreação e, simultaneamente, reconhecer que determinados programas regulamentados produziram resultados positivos para os habitats, para algumas espécies e para as comunidades.
Da mesma forma, alguém pode defender a utilização sustentável da fauna e, ao mesmo tempo, exigir regras rigorosas, transparência financeira, critérios científicos e fiscalização independente.
A minha posição não é de defesa nem de condenação automática. É a de procurar compreender cada caso.
Antes de julgarmos uma imagem, precisamos de conhecer a reserva, a espécie, a dimensão da população, a licença, a finalidade do abate e o destino das receitas. Só depois poderemos determinar se estamos perante conservação responsável, gestão populacional, exploração comercial mal fiscalizada ou simplesmente caça ilegal.
Ver diferentes pontos de vista não significa falta de princípios. Significa reconhecer que, na conservação da natureza, as respostas mais honestas raramente cabem num comentário de duas linhas nas redes sociais.
Palavras-chave: caça em reservas privadas, caça regulamentada, actividade cinegética, conservação da natureza, conservação da fauna, turismo cinegético, turismo de natureza, reservas privadas africanas, gestão da vida selvagem, controlo populacional de animais, caça sustentável, safáris em África, turismo em África, conservação em África, caça furtiva, protecção da biodiversidade, comunidades locais, sustentabilidade ambiental, gestão de reservas, Monfortur, Monfortinho, Namíbia, CITES, IUCN
Artigo de opinião por: Jorge Nunes
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