Noite das Artes em Luanda: cultura, galerias e uma nova forma de descobrir a cidade
Na passada sexta-feira, 25 de Setembro, tive a oportunidade de participar, pela primeira vez, na
Noite das Artes, uma iniciativa que permite percorrer várias galerias de Luanda numa única noite e que pretende repetir-se na última sexta-feira de cada mês.
E começo pelo mais importante:
gostei da iniciativa e acho que Luanda precisa de mais projectos deste género.
Num país onde tantas vezes falamos da necessidade de criar experiências, dinamizar o turismo interno, diversificar aquilo que temos para oferecer a quem nos visita e, sobretudo, fazer as pessoas redescobrirem as próprias cidades, esta é precisamente uma dessas iniciativas que merece ser acarinhada.
Nesta edição participaram seis galerias:
The Art Affair, ELA – Espaço Luanda Arte, Why Not, Galeria Palomino Artes, Galeria D'Maio e Galeria Mayamba.
A organização disponibilizou igualmente soluções de transporte entre os diferentes espaços, através dos Táxis Vambazar e do autocarro panorâmico associado à Visit Angola.
Descobrir Luanda através da arte
O conceito parece simples, mas tem muito potencial.
Durante algumas horas, cada participante pode entrar e sair das diferentes galerias, conhecer exposições, conversar, beber um copo de vinho e, sobretudo, descobrir espaços da cidade onde muitas pessoas provavelmente nunca tinham entrado.
Foi exactamente isso que aconteceu comigo.
Apesar de acompanhar regularmente actividades ligadas ao turismo, cultura e promoção de destinos, esta foi a primeira vez que fiz este circuito.
E uma das conclusões que retirei é que a
Noite das Artes não deve ser vista apenas como uma iniciativa cultural.
É também uma experiência de turismo urbano.
Estamos a circular por Luanda, a conhecer diferentes bairros e espaços, a entrar em galerias, a observar arquitectura, a encontrar pessoas e a consumir cultura.
É precisamente esta ligação entre arte, cidade, turismo e mobilidade que torna o conceito particularmente interessante.
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15 000 kz
Seis espaços, seis ambientes diferentes
Foi igualmente interessante perceber como cada galeria apresenta uma identidade própria.
A
The Art Affair, localizada na Rua Pedro Félix Machado, foi talvez a galeria que mais me surpreendeu.
Gostei particularmente da organização do espaço, da apresentação das peças e da experiência criada em torno das obras.
O
ELA – Espaço Luanda Arte, localizado na Rua Comandante Che Guevara, é dirigido por Dominick Maia Tanner e apresenta uma abordagem muito própria à arte contemporânea, com forte ligação à investigação artística, memória, identidade e cultura angolana.
A
Why Not, situada em Rua da Liberdade 217, apresenta um conceito que combina galeria, convívio, eventos e encontro entre criadores e público.
A
Galeria Palomino Artes, localizada no Hotel Forum, é um espaço que já conhecia melhor e que tem uma característica particular.
Não se limita à exposição de obras.
Ali funciona também uma vertente de formação artística, com aulas e actividades ligadas à pintura, o que lhe confere uma dimensão diferente dentro deste circuito.
A
Galeria D'Maio, localizada no Largo Rainha Ginga, foi outro dos espaços que me agradou particularmente, não só pelas peças apresentadas, mas também pela organização e apresentação do espaço.
Por último, a
Galeria Mayamba, situada na zona da Ingombota, completa este circuito que permite conhecer diferentes abordagens, artistas e formas de apresentar arte em Luanda.
Pintura, fotografia e diferentes formas de olhar Angola
Ao longo da noite encontramos sobretudo pintura e fotografia.
Mas o mais interessante talvez tenha sido precisamente a diversidade de linguagens, artistas e formas de organizar os diferentes espaços.
Há galerias mais institucionais, outras mais intimistas, espaços com uma vertente comercial mais evidente e outros que procuram criar uma relação mais próxima entre artista, obra e visitante.
Para mim, isso constitui uma das grandes riquezas deste projecto.
Não é necessário ser coleccionador, crítico de arte ou profundo conhecedor de pintura para fazer esta rota.
Podemos simplesmente entrar, observar, gostar ou não gostar, conversar e seguir para a galeria seguinte.
E é precisamente assim que se criam novos públicos para a cultura.
Um copo que acompanha a viagem
Outro pormenor de que gostei foi a possibilidade de adquirir uma taça e utilizá-la ao longo da noite.
Nos diferentes espaços era servido vinho branco e tinto da
Casa Ermelinda Freitas, parceira da iniciativa.
Pode parecer apenas um detalhe, mas não é.
Ajuda a criar ambiente, prolonga a permanência das pessoas nas galerias, promove o convívio e transforma aquilo que poderia ser simplesmente uma visita a uma exposição numa experiência.
É essa combinação entre
arte, cidade, pessoas, vinho e mobilidade que torna o conceito interessante.
Os Táxis Vambazar funcionaram; o autocarro panorâmico deixou muito a desejar
A mobilidade é precisamente outro elemento importante deste projecto.
Os
Táxis Vambazar asseguraram o transporte entre as galerias, uma solução que acabámos por utilizar e que se revelou fundamental para conseguirmos completar o circuito dentro do tempo disponível.
Já a experiência com o autocarro panorâmico associado à
Visit Angola, infelizmente, foi para mim o principal ponto negativo da noite.
E faço esta crítica precisamente porque acredito no potencial do produto.
Um autocarro panorâmico em Luanda desperta naturalmente curiosidade.
Era perceptível que muitas pessoas queriam experimentar a sensação de percorrer a cidade naquele tipo de veículo.
Nós próprios queríamos fazê-lo.
O problema foi a operação.
Na primeira galeria chegámos a esperar perto de uma hora pelo autocarro.
Percebendo que dessa forma dificilmente conseguiríamos visitar todas as galerias antes do encerramento do evento, acabámos por optar por um táxi e continuar o percurso.
Mais tarde conseguimos finalmente fazer uma deslocação no autocarro panorâmico.
Mas a experiência confirmou aquilo que já tínhamos sentido anteriormente.
Faltava regularidade, cumprimento de circuito e, acima de tudo, uma operação claramente orientada para transportar os participantes.
8.8
em Benguela, Angola
de 90000 kz / dia
7.4
em Benguela, Angola
de 45000 kz / dia
6.9
em Lobito, Angola
de 36800 kz / dia
8.3
em Talamajamba, Angola
de 75000 kz / dia
8.4
em Sumbe, Angola
de 59910 kz / dia
8.4
em Lubango, Angola
de 105000 kz / dia
8.2
em Lubango, Angola
de 60000 kz / dia
9.3
em Lubango, Angola
de 101440 kz / dia
8.0
em Cabo Ledo, Angola
de 92500 kz / dia
8.1
em Mussulo, Angola
de 85000 kz / dia
em Soyo, Angola
de 52965 kz / dia
em Cabo Ledo, Angola
de 70000 kz / dia
em Luanda \ Ingombota, Angola
de 88550 kz / dia
6.8
em Talatona, Angola
de 258750 kz / dia
7.8
em Kalandula, Angola
de 65000 kz / dia
7.8
em Cabinda, Angola
de 57900 kz / dia
9.5
em Cacuso, Angola
de 93440 kz / dia
8.1
em Baía Azul, Angola
de 115000 kz / dia
8.6
em Mussulo, Angola
de 82500 kz / dia
8.8
em Icolo e Bengo, Angola
de 115000 kz / dia
Primeiro presta-se o serviço. Depois fotografa-se o serviço bem prestado
Em alguns momentos, a impressão que ficou foi particularmente negativa.
Enquanto os participantes aguardavam transporte, havia uma preocupação visível com a produção de imagens do próprio autocarro, incluindo captação de vídeo e utilização de drone.
Nada tenho contra a produção de conteúdos promocionais.
Pelo contrário.
Quem trabalha em comunicação sabe perfeitamente a importância de criar boas imagens e divulgar um produto.
Mas existe uma ordem, primeiro presta-se bem o serviço, Depois fotografa-se e filma-se o serviço bem prestado.
Quando a produção de imagem aparentemente começa a interferir com aquilo que deveria ser a função principal do produto, alguma coisa precisa de ser corrigida.
Num evento deste género, o objectivo principal de um transporte associado à iniciativa deve ser simples.
Circular, transportar os participantes e permitir que consigam visitar o maior número possível de galerias.
O autocarro panorâmico pode ser, ele próprio, um produto turístico de Luanda
Talvez aqui esteja também a razão pela qual considero importante fazer esta crítica.
O autocarro panorâmico tem potencial.
Muito potencial.
Luanda precisa de experiências turísticas simples de compreender, regulares, com horários definidos e que permitam a um residente ou visitante entrar num ponto, percorrer a cidade, conhecer lugares e voltar a sair.
Uma experiência destas integrada na Noite das Artes poderia ser fantástica.
Mas para isso é necessária uma operação profissional.
Horários, frequência, circuito, pontos claramente definidos e prioridade absoluta ao passageiro.
Num evento que dura apenas algumas horas,
esperar uma hora por um transporte representa uma parte muito significativa de toda a experiência disponível.
É demasiado.
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Uma crítica não pode apagar aquilo que foi bem feito
Seria, porém, profundamente injusto reduzir a Noite das Artes a este problema.
A minha avaliação global da iniciativa é muito positiva.
Gostei das galerias.
Gostei da diversidade das obras.
Gostei do ambiente.
Gostei da ideia do vinho.
Gostei da circulação de pessoas e, principalmente, de ver uma Luanda que numa sexta-feira à noite conseguiu juntar pessoas à volta da cultura.
Aos galeristas, artistas, organizadores e parceiros que continuam a insistir e a investir neste projecto, fica o meu agradecimento.
Espero sinceramente que a iniciativa continue a realizar-se e que consiga crescer ao longo dos próximos meses.
Porque turismo também é isto.
Não são apenas praias, hotéis, restaurantes ou grandes monumentos.
Turismo é proporcionar motivos para sair de casa, descobrir um espaço onde nunca entrámos, percorrer uma rua de outra forma, conhecer um artista e olhar para a nossa própria cidade com outros olhos.
Na passada sexta-feira, durante algumas horas, foi isso que a Noite das Artes conseguiu fazer em Luanda.
E eu voltaria a fazer a rota.
Só espero que, na próxima vez, o autocarro esteja efectivamente à nossa espera para fazer a viagem — e não nós à espera dele.
Artigo de opinião por: Jorge Nunes
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