Benguela: quando o segundo maior mercado hoteleiro fica fora das grandes prioridades do Turismo
Uma província com dimensão hoteleira, emprego, praias, porto, ferrovia e um aeroporto internacional certificado continua a não ter, aparentemente, um peso nas prioridades nacionais do turismo proporcional à sua importância.
Há momentos em que os números obrigam a fazer perguntas.
Benguela não é uma província que esteja a tentar entrar no mapa turístico de Angola. Benguela já está no mapa. Tem mercado, hotéis, trabalhadores, empresas, praias, património, restauração, aeroporto, porto, caminho-de-ferro e uma localização privilegiada para funcionar como porta de entrada para todo o eixo Centro-Sul do país.
Segundo os dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística referentes a 2023, Benguela dispunha de 4.525 quartos e 7.995 camas em hotéis e outros meios de alojamento. Apenas Luanda apresentava números superiores. A Huíla registava 1.631 quartos e 1.976 camas e o Namibe 663 quartos e 929 camas.
Ou seja, Benguela tinha, sozinha, praticamente o dobro dos quartos da Huíla e do Namibe juntos e quase três vezes o número de camas das duas províncias somadas.
Não estamos, portanto, perante uma questão de percepção. Estamos perante a dimensão real de um mercado.
Os números do emprego reforçam ainda mais esta realidade.
O Anuário Estatístico do Turismo 2020-2021, publicado pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo então Ministério da Cultura e Turismo, registava 18.531 empregos ligados ao sector em Benguela em 2021, correspondentes a cerca de 10,1% do emprego turístico nacional.
Mais uma vez, apenas Luanda aparecia à frente. A Huíla registava 13.856 empregos, o Cuanza-Sul 11.946 e o Namibe 2.984.
São milhares de famílias que dependem directa ou indirectamente da hotelaria, restauração, agências, transportes e restantes actividades associadas ao turismo.
E uma estrutura empresarial desta dimensão significa igualmente fornecedores, salários, contribuições para a Segurança Social, impostos, consumo e circulação de dinheiro na economia local.
É por isso legítimo perguntar: está Benguela a receber do turismo nacional uma atenção proporcional ao peso económico que representa?
A pergunta torna-se ainda mais pertinente quando observamos algumas das decisões mais recentes.
Em Agosto de 2026 foi anunciado o projecto UNGUENDE, financiado pela Itália em cinco milhões de euros para os próximos quatro anos, destinado à promoção do turismo sustentável e inclusivo nas províncias da Huíla e do Namibe.
É uma excelente notícia para as duas províncias e uma iniciativa que deve ser valorizada.
A questão não é essa.
A questão é perceber por que razão Benguela ficou de fora, quando possui uma base empresarial, hoteleira e de emprego superior e quando poderia perfeitamente integrar um projecto regional capaz de construir um verdadeiro circuito turístico Benguela-Huíla-Namibe.
O mesmo acontece quando olhamos para investimentos públicos de dimensão muito superior.
Em Fevereiro de 2026 foi anunciado um investimento público de cerca de 449 milhões de euros em infra-estruturas turísticas, incluindo intervenções em Cabo Ledo e em zonas costeiras do Namibe e do Cuanza-Sul, envolvendo água, energia, saneamento, acessos, telecomunicações e iluminação.
Benguela não aparece entre os territórios abrangidos.
Mais uma vez: não está em causa retirar investimento a outras regiões.
Está em causa perceber onde está Benguela na estratégia.
Existe outro problema que não pode ser ignorado.
Ter milhares de quartos é uma vantagem quando existe procura. Quando a procura é insuficiente, transforma-se num enorme peso financeiro para os operadores.
Benguela demonstra repetidamente que responde quando há eventos, feriados prolongados ou movimentos excepcionais.
No feriado prolongado de Fevereiro de 2025, por exemplo, a província recebeu 3.356 turistas e foram estimados cerca de 302 milhões de kwanzas apenas em alojamento.
Grandes eventos realizados na província conseguem igualmente colocar muitos hotéis próximos da lotação máxima.
Isso prova duas coisas: existe capacidade instalada e existe procura quando são criadas razões para viajar.
O problema está nos restantes dias do ano.
Uma hotelaria não sobrevive apenas de feriados prolongados, visitas oficiais, feiras ou grandes acontecimentos ocasionais. Precisa de ocupação regular.
Quando essa ocupação não existe, adiam-se remodelações, reduzem-se equipas, trava-se a manutenção e desaparece a capacidade de reinvestimento.
Aos poucos, unidades que deveriam renovar-se começam a envelhecer e um destino que possui todas as condições para evoluir corre o risco de ficar parado no tempo.
Talvez um dos maiores paradoxos esteja precisamente aqui.
O Aeroporto Internacional Paulo Teixeira Jorge, na Catumbela, recebeu a sua certificação internacional em Dezembro de 2024.
No discurso sobre o Estado da Nação de Outubro de 2025, o Presidente da República confirmava que a certificação da Catumbela estava concluída, enquanto os processos da Mukanka, no Lubango, e Welwitschia Mirabilis, no Namibe, ainda se encontravam em curso.
Benguela dispõe, portanto, de uma infraestrutura aeroportuária que pode desempenhar um papel completamente diferente no turismo nacional.
E não está sozinha.
Num espaço geográfico relativamente reduzido encontramos o Aeroporto Internacional Paulo Teixeira Jorge, o Porto do Lobito e o Caminho de Ferro de Benguela.
Poucas regiões do país conseguem reunir aeroporto, porto marítimo, ferrovia, estradas, praias, cidades consolidadas e uma rede hoteleira desta dimensão.
Falta transformar esses activos num verdadeiro produto turístico.
Talvez aqui esteja a mudança de perspectiva necessária.
Benguela não deve concorrer com a Huíla ou com o Namibe.
Benguela deve complementar a Huíla e o Namibe.
Um turista que chega à Catumbela pode conhecer Benguela, Lobito, Baía Azul, Caotinha, Baía Farta ou Egipto Praia e continuar posteriormente para a Huíla e para o Namibe.
Um passageiro que chega num cruzeiro ao Porto do Lobito pode entrar num circuito turístico regional.
O Caminho de Ferro de Benguela acrescenta ainda outra dimensão, permitindo ligar o litoral ao Huambo, Bié e Moxico e integrar produtos ferroviários, como já acontece com operações turísticas internacionais que utilizam o corredor ferroviário angolano.
Em vez de pensarmos nas províncias isoladamente, deveríamos começar a pensar em corredores turísticos.
Nesse conceito, Benguela não é o fim de uma viagem.
É uma das principais portas de entrada.
Existe ainda um simbolismo difícil de ignorar.
Em 2019, durante o Angola Tourism Awards realizado no âmbito do World Tourism Forum, Benguela foi distinguida na categoria Destino Turístico.
Era a província das praias, das acácias rubras, da gastronomia, da hospitalidade e do Lobito, cidade durante décadas conhecida como a “Sala de Visitas de Angola”.
Passaram sete anos.
E fica a sensação de que aquela dinâmica não teve continuidade proporcional ao potencial existente.
Seria injusto afirmar que nada foi feito. Existem iniciativas locais de promoção, formação e capacitação, incluindo programas dirigidos aos agentes do sector, bem como projectos desenvolvidos pelo próprio Governo Provincial.
Mas capacitar, promover e organizar não substitui investimento estruturante.
O problema de Benguela talvez não seja a falta de potencial.
É exactamente o contrário.
O que parece faltar é uma estratégia nacional proporcional a tudo isso.
Quando cinco milhões de euros são mobilizados para desenvolver o turismo sustentável na Huíla e no Namibe, Benguela deveria estar naturalmente sentada à mesma mesa.
Quando centenas de milhões são aplicados na infraestruturação de zonas turísticas costeiras, também deveria ser analisado aquilo que é necessário fazer na Restinga, Baía Azul, Caotinha, Baía Farta, Egipto Praia e noutros pontos da extensa costa de Benguela.
E quando Angola procura aumentar as entradas de turistas internacionais, deveria olhar com muita atenção para um aeroporto internacional certificado que está praticamente no centro de um dos maiores mercados hoteleiros do país.
Investir em Benguela não significa retirar à Huíla ou ao Namibe.
Significa criar força suficiente para que as três províncias trabalhem como um destino complementar.
Porque, no final, apostar em Benguela é também apostar no desenvolvimento turístico de todo o eixo Centro-Sul de Angola.
E talvez esteja na altura de o segundo maior mercado hoteleiro do país deixar de ser apenas referido nos números e voltar a ocupar o lugar que merece nas prioridades do turismo nacional.
Instituto Nacional de Estatística: dados estatísticos sobre a capacidade dos estabelecimentos hoteleiros e meios de alojamento em Angola.
www.ine.gov.ao
Centro de Imprensa da Presidência da República / CIAM: informações sobre investimentos públicos no turismo, certificação aeroportuária e movimento turístico em Benguela.
www.ciam.gov.ao
Governo Provincial de Benguela: informação sobre programas de formação, promoção e capacitação dos agentes turísticos da província.
benguela.gov.ao
Hotéis Angola: Angola Tourism Awards 2019 e distinção de Benguela como destino turístico.
www.hoteisangola.com
Artigo de opinião por: Jorge Nunes
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