Enquanto o Rovos Rail encanta Angola, Benguela continua a abandonar a sua própria história
No momento em que, mais uma vez, o comboio Rovos Rail chega ao Lobito, depois de uma viagem que liga Dar es Salaam ao Lobito, somos obrigados a fazer uma pergunta simples: afinal, que turismo estamos verdadeiramente a construir?
Fala-se constantemente em turismo, em promoção, em estratégias e em desenvolvimento. Mas, quando olhamos para aquilo que realmente diferencia um destino turístico, percebemos que continuamos a desperdiçar algumas das maiores riquezas que Angola possui.
Benguela já teve um produto turístico diferenciador
A província de Benguela, e em particular a cidade do Lobito, foi uma das primeiras regiões de Angola a despertar o interesse internacional dos navios de cruzeiro. E não era por acaso.
O produto turístico existia. Não era apenas o Porto do Lobito, a Restinga, os edifícios históricos, as praias, a Catumbela ou a cidade de Benguela. Era o conjunto de experiências que tornavam esta região única.
Era a possibilidade de um visitante chegar por mar e encontrar um destino onde o património ferroviário ocupava um lugar de enorme destaque, complementando a oferta histórica, cultural e paisagística da província.
Durante muitos anos, quem chegava nos cruzeiros fazia questão de sair para conhecer a região. Havia um elemento diferenciador que poucas cidades africanas podiam oferecer: a história viva do Caminho de Ferro de Benguela.
Um património ferroviário praticamente esquecido
É precisamente aqui que hoje sentimos que Benguela perdeu uma oportunidade extraordinária.
Enquanto o Rovos Rail percorre África com carruagens cuidadosamente preservadas da década de 1960, proporcionando uma experiência considerada uma das mais prestigiadas do turismo ferroviário mundial, o Caminho de Ferro de Benguela possui carruagens históricas de 1927.
Carruagens muito mais antigas.
Carruagens que fazem parte da história de Angola.
Carruagens que poderiam constituir um dos maiores ex-líbris turísticos da província de Benguela.
Mas, em vez disso, encontram-se abandonadas, escondidas e entregues à degradação.
Quando estas carruagens deixaram de circular, foi anunciado pelo próprio Caminho de Ferro de Benguela que seriam enviadas para Africa do Sul para recuperação.
O tempo passou.
Décadas passaram.
E aquilo que poderia hoje ser um museu ferroviário vivo, um comboio histórico de referência internacional ou um dos principais produtos turísticos de Angola continua simplesmente esquecido.
Quando se abandona o património, perde-se turismo
Com este abandono, Benguela também perdeu.
Perdeu parte do interesse dos cruzeiros internacionais.
Perdeu visitantes.
Perdeu oportunidades económicas.
Perdeu um elemento diferenciador que nenhum plano de marketing consegue substituir.
O turismo não se constrói apenas com campanhas de publicidade.
Constrói-se criando produtos.
Constrói-se preservando aquilo que mais ninguém tem.
Constrói-se contando histórias.
Poucas histórias são tão importantes para Angola como a do Caminho de Ferro de Benguela, uma infraestrutura que ligou o Atlântico ao interior de África, impulsionou o comércio internacional e marcou profundamente o desenvolvimento económico de toda a região.
Turismo é transformar património em experiências
Infelizmente, parece que fazemos tudo para esquecer essa história.
Não porque ela tenha perdido importância.
Mas porque, muitas vezes, continuamos sem compreender verdadeiramente o que é turismo.
Turismo não é apenas construir hotéis.
Turismo não é apenas organizar eventos.
Turismo é transformar património em experiências.
É fazer com que um visitante viaje milhares de quilómetros para viver algo que não existe em mais lado nenhum.
Enquanto celebramos, com toda a justiça, a chegada do Rovos Rail ao Lobito, talvez seja também o momento de refletirmos.
Como é possível admirarmos um comboio histórico estrangeiro e, ao mesmo tempo, continuarmos a abandonar um património ferroviário ainda mais antigo, que é nosso?
Como é possível valorizarmos a história dos outros e ignorarmos a nossa?
Benguela ainda vai a tempo
Benguela volta, infelizmente, a perder.
E quem perde não é apenas Benguela.
Perde Angola.
Cada carruagem abandonada representa uma oportunidade turística desperdiçada.
Cada ano que passa representa visitantes que nunca chegarão.
Cada decisão adiada afasta-nos um pouco mais da possibilidade de transformar o Caminho de Ferro de Benguela num dos maiores produtos turísticos ferroviários de África.
Ainda vamos a tempo de inverter este caminho.
Mas, para isso, será necessário compreender que preservar património não é um custo.
É um investimento.
É criar riqueza, identidade e diferenciação.
E, sobretudo, é perceber que a história de Angola não pode continuar escondida num parque ferroviário, quando poderia estar a percorrer o mundo como um dos maiores embaixadores do turismo nacional.
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