Evolução das Chegadas Internacionais de "Turistas" em Angola (2010-2025)
O turismo em Angola registou profundas alterações ao longo dos últimos 15 anos. Depois de um período de forte crescimento impulsionado essencialmente pelo turismo de negócios, o país atravessou uma acentuada quebra devido à crise económica, seguida pelo impacto da pandemia da Covid-19. Atualmente, Angola volta a apresentar uma trajetória positiva, tendo sido considerado em 2025 o país africano com maior crescimento nas chegadas internacionais de turistas, mas ainda muito longe dos dados de 2013
Chegadas internacionais de turistas
| Ano |
Chegadas Internacionais |
Variação |
| 2010 |
425 000 |
- |
| 2011 |
481 000 |
+13,2% |
| 2012 |
528 000 |
+9,8% |
| 2013 |
650 000 |
+23,1% |
| 2014 |
595 000 |
-8,5% |
| 2015 |
592 000 |
-0,5% |
| 2016 |
397 000 |
-32,9% |
| 2017 |
261 000 |
-34,3% |
| 2018 |
218 000 |
-16,5% |
| 2019 |
218 000 |
0,0% |
| 2020 |
Pandemia Covid-19 |
- |
| 2021 |
Recuperação gradual |
- |
| 2022 |
+- 140 000 |
- |
| 2023 |
+- 206 000 |
+47% |
| 2024 |
+- 171 500 |
-16,7% |
| 2025 |
223 000 |
+30% |
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Os números do turismo em Angola: crescimento ou apenas mais entradas?
Numa altura em que muito se fala do crescimento do turismo em Angola, importa analisar os números com algum rigor e, acima de tudo, compreender aquilo que eles realmente representam.
Segundo o Ministério do Turismo, Angola registou cerca de 223 mil entradas internacionais em 2025, valor que corresponde a um crescimento aproximado de 30% face ao ano anterior. À primeira vista, trata-se de um indicador positivo. No entanto, quando comparado com as cerca de 650 mil entradas registadas em 2013, verifica-se que o país continua muito distante dos melhores resultados alguma vez alcançados.
Estamos verdadeiramente a medir turistas ou apenas entradas no território nacional?
Ao longo dos anos, Angola alterou significativamente o seu regime de vistos, surgindo novas modalidades, como o visto de fronteira, que dificultam a distinção entre quem entra por motivos turísticos e quem entra por razões de negócio, trabalho, diplomacia ou outras atividades.
Na prática, as estatísticas agregam diferentes perfis de visitantes, tornando difícil avaliar o verdadeiro desempenho do turismo enquanto setor económico.
Seria, por isso, extremamente importante que o Serviço de Migração e Estrangeiros (SME) disponibiliza-se estatísticas detalhadas por posto fronteiriço, nacionalidade, motivo de entrada e tempo de permanência.
Essa informação permitiria compreender melhor a dinâmica dos fluxos internacionais e identificar quais as regiões que efetivamente beneficiam dessas deslocações.
Santa Clara e a importância das fronteiras terrestres
Um exemplo evidente é a fronteira de Santa Clara, que se tornou uma importante porta de entrada para visitantes provenientes da Namíbia e de outros países da região austral de África.
O elevado movimento de veículos observado ao longo do ano demonstra que existe uma dinâmica significativa de visitantes com destino à Huíla e ao Namibe, mas também a Benguela e a outras regiões do país.
Centenas de viaturas atravessam mensalmente esta fronteira, transportando pessoas que circulam pelo sul de Angola, utilizam alojamentos, restaurantes, postos de abastecimento, espaços comerciais e diferentes serviços turísticos.
No entanto, sem dados oficiais detalhados sobre as entradas por fronteira e sobre o percurso realizado por estes visitantes, continua a ser impossível medir com precisão o impacto económico deste fluxo.
As entradas de 2025 devem ser analisadas no seu contexto
Também importa enquadrar os números de 2025 no contexto em que foram obtidos.
O ano ficou marcado por inúmeras reuniões internacionais, fóruns económicos, missões diplomáticas, conferências e diversas iniciativas relacionadas com as comemorações dos 50 anos da Independência de Angola.
Uma parte significativa das entradas poderá, por isso, ter correspondido a participantes destes eventos, membros de missões oficiais, representantes diplomáticos, empresários, consultores e convidados institucionais, e não necessariamente a turistas de lazer.
Não se pretende desvalorizar essas entradas. Pelo contrário, representam movimento económico e são importantes para o país.
Contudo, é fundamental distinguir visitantes em missão oficial, empresários, participantes em congressos, trabalhadores temporários e turistas propriamente ditos.
Sem essa separação, torna-se difícil avaliar o verdadeiro desempenho das políticas públicas direcionadas para o desenvolvimento do turismo.
O papel do Instituto Nacional de Estatística
Outro aspeto que merece reflexão é o papel do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Tradicionalmente, seria expectável que esta entidade assumisse um papel mais ativo na recolha, validação e divulgação das estatísticas do setor, funcionando como um elemento independente de análise.
Atualmente, a comunicação dos números tem sido liderada pelo Ministério do Turismo, situação que reforça a necessidade de cruzamento de informações entre o Ministério do Turismo, o SME e o próprio INE.
Este cruzamento permitiria assegurar maior transparência, consistência e credibilidade aos dados publicados.
O Ministério do Turismo tem naturalmente interesse em demonstrar os resultados das políticas que implementa. É precisamente por essa razão que a validação independente dos números por parte do INE seria importante para garantir uma leitura mais equilibrada da evolução do setor.
8.8
em Benguela, Angola
de 90000 kz / dia
8.0
em Luanda \ Ingombota, Angola
de 237000 kz / dia
6.5
em Waku-Kungo, Angola
de 49000 kz / dia
7.4
em Baía Azul, Angola
de 55000 kz / dia
8.4
em Lubango, Angola
de 105000 kz / dia
8.2
em Lubango, Angola
de 60000 kz / dia
9.3
em Lubango, Angola
de 101440 kz / dia
em Luanda \ Ingombota, Angola
de 332500 kz / dia
8.0
em Cabo Ledo, Angola
de 92500 kz / dia
6.8
em Talatona, Angola
de 258750 kz / dia
7.8
em Kalandula, Angola
de 65000 kz / dia
9.5
em Cacuso, Angola
de 74440 kz / dia
8.1
em Baía Azul, Angola
de 115000 kz / dia
8.6
em Mussulo, Angola
de 63000 kz / dia
8.6
em Mussulo, Angola
de 75000 kz / dia
7.6
em Mussulo, Angola
de 48000 kz / dia
7.6
em Icolo e Bengo, Angola
de 180000 kz / dia
8.4
em Luanda \ Ingombota, Angola
de 108900 kz / dia
8.8
em Icolo e Bengo, Angola
de 115000 kz / dia
em Luanda \ Ingombota, Angola
de 160000 kz / dia
As companhias aéreas estão a abandonar o mercado angolano
Um outro indicador merece igualmente reflexão.
Desde o início de 2026, temos assistido à redução de operações, à suspensão de rotas ou à saída de companhias aéreas do mercado angolano.
As justificações apresentadas passam frequentemente pelo aumento dos custos operacionais, pelo preço dos combustíveis e pelas dificuldades na repatriação de capitais.
Todos estes fatores são relevantes e podem influenciar diretamente a sustentabilidade de uma operação aérea.
Contudo, existe uma realidade económica que não pode ser ignorada: uma companhia aérea dificilmente abandona um mercado onde exista procura suficiente para tornar as suas rotas rentáveis.
A ausência de passageiros e a insuficiência da procura também devem ser consideradas quando se procura compreender as razões pelas quais determinadas companhias reduzem ou encerram as suas operações em Angola.
Se o turismo internacional estivesse efetivamente a crescer de forma sólida e consistente, seria expectável assistir ao aumento das frequências, à abertura de novas rotas, à entrada de novas companhias e a uma maior concorrência entre transportadoras.
Contudo, aquilo que se tem verificado em vários casos é precisamente o movimento inverso.
Esta aparente contradição entre o crescimento anunciado das entradas internacionais e a redução da oferta aérea merece ser analisada com maior profundidade.
223 mil visitantes para uma capacidade de 38022 camas
Há ainda uma questão que deve ser analisada à luz da capacidade de alojamento instalada no país.
Segundo os dados oficiais disponíveis, Angola dispõe de aproximadamente 38022 camas nas suas unidades hoteleiras.
Admitindo, apenas para efeitos de análise, uma permanência média de quatro noites por visitante, os 223 mil visitantes internacionais representariam cerca de 892 mil dormidas ao longo de todo o ano de 2025.
A capacidade anual máxima das unidades hoteleiras pode ser calculada multiplicando as 38022 camas por 365 dias.
Assim, a percentagem teórica de ocupação gerada pelas entradas internacionais poderá ser calculada através da seguinte fórmula:
223.000 dormidas ÷ capacidade anual de
38022 camas= 5,86 visitantes internacionais por cada quarto
Mesmo admitindo que todas as 223 mil pessoas utilizaram unidades hoteleiras, algo que sabemos não corresponder à realidade, o turismo internacional continuaria a representar apenas uma parte reduzida da capacidade anual disponível.
Muitos destes visitantes poderão ter ficado em residências particulares, casas de familiares, instalações diplomáticas, alojamentos pertencentes a empresas ou outros espaços não classificados como unidades hoteleiras.
Além disso, uma parte considerável das dormidas estará concentrada em Luanda, deixando uma participação ainda menor para as restantes províncias.
O turismo internacional não é suficiente para sustentar a hotelaria nacional
Esta análise conduz a uma conclusão importante: o turismo internacional continua a ser insuficiente para sustentar a hotelaria angolana.
A maioria das unidades hoteleiras depende sobretudo do mercado interno, das deslocações profissionais, das empresas, do setor petrolífero, das organizações internacionais, da administração pública e da realização de eventos.
O visitante estrangeiro continua a representar uma componente importante, mas ainda demasiado reduzida para garantir, por si só, a sustentabilidade económica da capacidade hoteleira instalada no país.
Por essa razão, qualquer estratégia de desenvolvimento do turismo em Angola deve atribuir uma importância central ao turismo interno.
Não é possível construir um setor turístico sustentável dependendo exclusivamente das entradas internacionais, principalmente quando estas continuam muito abaixo dos números registados em períodos anteriores.
A receita potencial da taxa de 5% sobre as estadias
Existe ainda uma outra perspetiva que merece reflexão.
Com a aplicação da taxa de 5% sobre as estadias de visitantes estrangeiros nas unidades hoteleiras, importa perceber a dimensão financeira que estes números poderão representar.
Se, a título meramente ilustrativo, considerarmos uma tarifa média de 100.000 kwanzas por noite e uma permanência média de quatro noites, os 223 mil visitantes representariam:
223.000 visitantes × 100.000 Kz × 4 noites = 89,2 mil milhões de kwanzas
Aplicando uma taxa de 5% sobre este valor, obteríamos uma arrecadação potencial de:
89,2 mil milhões de Kz × 5% = 4,46 mil milhões de kwanzas
Naturalmente, trata-se apenas de uma simulação.
Os valores médios das estadias variam significativamente, nem todos os visitantes permanecem quatro noites e nem todas as pessoas que entram em Angola ficam alojadas em unidades abrangidas pela taxa.
Ainda assim, esta estimativa permite perceber a dimensão financeira associada às estatísticas atualmente divulgadas.
Permite igualmente compreender por que razão é tão importante conhecer o verdadeiro perfil dos visitantes, o número de dormidas e a sua distribuição pelas unidades hoteleiras.
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Onde estão estes visitantes?
Mas permanece uma pergunta que continua sem resposta: onde estão estes visitantes?
Se o turismo estivesse efetivamente a crescer ao ritmo sugerido pelas estatísticas, seria expectável observar reflexos claros nas taxas de ocupação das unidades hoteleiras, no aumento das reservas, no crescimento da procura pelos operadores turísticos e no reforço das ligações aéreas internacionais.
Seria igualmente expectável verificar maior circulação de turistas nas províncias, maior procura por atividades e experiências, crescimento das empresas de animação turística e abertura de novas unidades de alojamento.
No entanto, aquilo que muitos empresários do setor relatam é precisamente o contrário.
Fora de Luanda, muitas unidades continuam a registar níveis de ocupação reduzidos e várias províncias não observam um crescimento consistente da procura turística.
Em alguns destinos, a perceção dos operadores é de que existem atualmente menos turistas a circular do que em anos anteriores.
Esta realidade não significa necessariamente que os números divulgados estejam errados.
Significa, porém, que os números das entradas no país, isoladamente, não são suficientes para descrever a realidade do turismo angolano.
Angola precisa de medir turismo e não apenas entradas
Não se pretende colocar em causa os números divulgados pelas entidades oficiais.
O que se defende é que as estatísticas devem evoluir para um nível de detalhe que permita compreender quem entra em Angola, por que motivo entra, quanto tempo permanece, onde fica alojado, quais as províncias que visita e qual o impacto económico efetivamente gerado.
Seria necessário conhecer, entre outros indicadores:
• O número de entradas por cada posto fronteiriço;
• A nacionalidade dos visitantes;
• O principal motivo da viagem;
• O tempo médio de permanência;
• O número de hóspedes estrangeiros nas unidades hoteleiras;
• O número efetivo de dormidas;
• A distribuição dos visitantes por província;
• A taxa de ocupação das unidades hoteleiras;
• O valor médio gasto por visitante.
Mais do que contabilizar entradas, Angola precisa de medir turismo.
Só com estatísticas completas, transparentes e devidamente segmentadas será possível avaliar a evolução real do setor, identificar as suas fragilidades e definir políticas públicas capazes de responder às necessidades do turismo nacional.
Porque crescer em números é importante, mas crescer em impacto económico, ocupação hoteleira, criação de emprego e desenvolvimento territorial é aquilo que verdadeiramente interessa.
Artigo de opinião por: Jorge Nunes
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