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A Pérola do turismo que continua fechada na concha

Artigo de: Jorge Nunes
Durante anos, o Namibe é promovido como "a pérola do turismo", título dado pelo próprio Ministério da Hotelaria e Turismo. E com razão — a província tem tudo: mar, deserto, paisagens de fantasticas, história, cultura e identidade própria. Mas a verdade é que essa “pérola” continua trancada dentro da concha. O desenvolvimento turístico tarda em acontecer, e os obstáculos continuam visíveis — basta ir ao terreno para perceber.
Estivemos recentemente vários dias em Moçâmedes, capital da província, e mais uma vez voltamos com a sensação de que o potencial é real, mas a confiança económica dos operadores está por um fio. O turismo, para acontecer de verdade, precisa de movimento, de fluxo, de procura — e essa procura, infelizmente, continua muito abaixo do necessário.

Transporte: o primeiro bloqueio

O acesso à província do Namibe continua a ser um dos maiores entraves ao desenvolvimento turístico. Para começar, os voos da TAAG não são diários, o que limita severamente a capacidade de atração de visitantes. A ligação aérea Luanda–Moçâmedes existe sim, mas não com a frequência desejada — e isso é um problema tanto para os turistas como para os empresários que investem no setor.
A justificação comum é que a procura não justifica voos diários, mas é um ciclo vicioso: sem voos, não há turistas; sem turistas, não há volume de negócio. E assim continuamos.

Estradas: longas, bonitas e... inacabadas

No que diz respeito ao transporte terrestre, a situação é semelhante. A Estrada Nacional 100 (EN100), que liga Benguela a Moçâmedes, em grande parte em bom estado — mas os trechos entre Cimo e Lucira, por exemplo, continuam inacabados há anos. Faltam menos de 60 km, mas que parecem eternos. O troço na zona do Bentiaba, apesar de recente, já apresenta buracos — sinal de que a durabilidade da infraestrutura ainda deixa a desejar.


Turismo de passagem: muito pó, pouco impacto local

A maioria dos visitantes que chega ao Namibe passa rapidamente por Moçâmedes e segue diretamente para o deserto. Os acampamentos têm-se multiplicado, sobretudo nos feriados prolongados, impulsionando um tipo de turismo de evasão e aventura.
Passeios à Baía dos Tigres ou à Foz do Cunene tornaram-se experiências de destaque nos roteiros dos viajantes. No entanto, há um detalhe importante: muito pouco desse movimento reverte em benefício da comunidade local. A cidade é muitas vezes apenas ponto de abastecimento e trânsito. O contacto com os serviços da capital é mínimo, e o impacto económico efetivo é quase nulo para os negócios locais, desde hotéis a restaurantes ou pequenos operadores.

 

A ocupação hoteleira que sobrevive, não que prospera

As unidades hoteleiras da cidade de Moçâmedes vivem sobretudo da atividade governamental, empresarial ou eventos como o Afro- basquet, ou seja, de pessoas que vêm trabalhar temporariamente. A procura turística, especialmente em época de cacimbo, desce drasticamente. O que se vê são hotéis com taxas de ocupação mínimas, suficientes apenas para manter as portas abertas.
Neste cenário, investir no setor passa a ser visto com receio — com razão. E isso impede o crescimento de toda a cadeia de valor do turismo.

Falta de serviços básicos para o turismo

Comecemos pelo Rent-a-Car: é extremamente difícil alugar um carro em Moçâmedes. Para um turista independente, isso é quase impeditivo. Agências de viagens e operadores turísticos locais são raros, praticamente inexistentes. E os guias de turismo, quando existem, atuam de forma informal, sem certificações ou garantias de segurança. Isso compromete a experiência e coloca em risco a integridade do visitante e da imagem do destino.

Namibe Hoteis na Zona

Gastronomia com potencial, mas sem consistência

Do ponto de vista gastronómico, há alguma oferta, mas muito abaixo do esperado para uma capital turística. A maioria dos visitantes acaba por se concentrar em dois restaurantes junto à marginal: o Liopa e o Náutico, que se destacam pela localização e consistência. Mas vários outros espaços estão encerrados ou operam com uma oferta irregular e com serviço pouco profissionalizado.

A urgência de agir

O Namibe não pode continuar a ser apenas um destino de potencial. Já passou tempo suficiente desde que se reconheceu a sua vocação turística. É urgente garantir acessos regulares, serviços estruturados, promoção ativa e um ambiente propício ao investimento.
Se não fizermos nada, a pérola continuará na concha. E o turismo no Namibe continuará a ser um sonho adiado.

Cacimbo

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