Um artigo de: Artur Café Alves
No coração do sul de Angola, para lá das paisagens deslumbrantes da Huíla, esconde-se uma história singular e pouco contada: a de uma comunidade de bóeres, descendentes de colonos europeus da África do Sul, que aqui procuraram refúgio e deixaram uma marca inesperada e duradoura. Para o viajante que procura mais do que apenas praias e quer mergulhar nas profundezas da história angolana, seguir os passos destes migrantes revela um capítulo fascinante das complexas interações que moldaram esta nação.
Tudo começou no final do século XIX, com uma série de migrações conhecidas como o “Dorsland Trek” ou a “Jornada da Sede”. Impulsionados por um profundo desejo de autonomia e fugindo à administração britânica na África do Sul, grupos de bóeres, um povo de origem holandesa, alemã e francesa com uma identidade forjada na terra e na fé calvinista, iniciaram uma viagem árdua em busca de uma nova pátria. A sua travessia pelo implacável deserto do Kalahari foi uma verdadeira odisseia, marcada pela perda de vidas e gado devido à falta de água e a doenças. Em 1879, os sobreviventes cruzaram o rio Cunene e chegaram finalmente a Angola. Após negociações com as autoridades coloniais portuguesas, estabeleceram-se no planalto da Huíla, fundando em 1881 a sua principal colónia na Humpata. Esta região, com as suas terras férteis, tornou-se o epicentro de uma comunidade que, embora procurando isolamento para preservar a sua cultura, acabaria por transformar a economia local.
Apesar de serem vistos com desconfiança pelas autoridades portuguesas, que os consideravam “ociosos” e resistentes à integração, os bóeres introduziram uma inovação que revolucionou o sul de Angola: o “carro bóer”. Esta robusta carroça de madeira, puxada por bois, tornou-se o principal meio de transporte de mercadorias antes da chegada do comboio e dos camiões. Capaz de rasgar os seus próprios caminhos por terrenos difíceis, o carro bóer foi fundamental para abrir o interior do país. Os bóeres não só construíram e repararam estradas entre Moçâmedes, Benguela e o planalto, como também impulsionaram o lucrativo comércio da borracha e da cera, transportando produtos entre o litoral e as remotas terras do Bié e do Moxico. Ainda hoje, ao percorrer as zonas rurais do sul, é possível ver carroças de bois, um vestígio vivo deste legado, a transportar pessoas e colheitas para os mercados locais.
A vida em Angola não foi, contudo, a utopia que procuravam. A sua relação com a administração portuguesa foi marcada por atritos constantes sobre impostos, a língua e a educação. Os bóeres resistiam a assimilar-se, preferindo manter as suas próprias escolas e estruturas de liderança, o que gerava desconfiança mútua. A coexistência com as populações indígenas também foi, por vezes, conflituosa, marcada por disputas por terra e gado. Este isolamento cultural e a resistência à modernização, embora preservassem a sua identidade, acabaram por levar ao seu empobrecimento e a um sentimento de estagnação. A sensação de que “não há futuro para nós, aqui” começou a crescer, preparando o terreno para a sua partida.
O declínio da presença bóer materializou-se em dois grandes êxodos. O primeiro, em 1928, viu cerca de 80% da comunidade ser “repatriada” para o Sudoeste Africano (atual Namíbia), numa operação organizada pelo governo da África do Sul. As razões foram uma mistura de insatisfação com as condições em Angola e fatores políticos externos. O golpe final chegou em 1958. Com os “ventos da mudança” a soprarem por toda a África e o receio da iminente guerra pela independência em Angola, a maioria dos bôeres remanescentes decidiu partir. A comunidade, já envelhecida e reduzida, deixou de existir como uma entidade coesa, e os últimos indivíduos partiram em 1975, com a independência do país.
Hoje, para o visitante atento, a passagem dos bóeres por Angola não foi totalmente apagada. O antigo cemitério bóer na Humpata é um testemunho silencioso e comovente da sua presença. Nomes de bois de origem africânder ainda usados na região e os canais de irrigação que construíram na Serra da Chela são outras marcas da sua passagem. A sua história é hoje uma memória da fascinante e complexa tapeçaria de culturas e migrações que fazem de Angola um destino tão diverso e rico.