Num país com um potencial natural extraordinário, mas ainda pouco explorado no turismo de natureza, o Parque de Campismo do Namibe renasce como um exemplo inspirador do que é possível fazer quando visão, vontade e dedicação se unem.
Situado numa das províncias mais autênticas e paisagisticamente ricas de Angola, o parque está a ser reabilitado pelo promotor Paulo Pio, que decidiu transformar um espaço abandonado num verdadeiro ponto de encontro para aventureiros, famílias e amantes do campismo.
O seu trabalho demonstra que revitalizar infraestruturas turísticas não significa apenas recuperar paredes e espaços, mas sim reativar memórias, criar oportunidades para a comunidade local e abrir caminho a um modelo de turismo mais sustentável, acessível e descentralizado.
O exemplo do Namibe prova que, com determinação e parcerias certas, qualquer região pode apostar no campismo, na natureza e na experiência ao ar livre como motores do desenvolvimento turístico.
Nesta entrevista, Paulo Pio partilha os desafios, a visão e o futuro de um projeto que já está a inspirar outras províncias a olharem para os seus próprios parques com novos olhos.
Paulo Pio: Sou proprietário de três unidades hoteleiras e responsável pela requalificação do Parque de Campismo do Namibe. O que me motivou a assumir este desafio tem raízes muito pessoais.
Antes do período de guerra, era comum nas nossas famílias fazermos acampamentos, piqueniques e visitas a barragens. Íamos sempre em grupo — primos, tios, amigos — e passávamos momentos emoráveis em contacto com a natureza.
Quando encontrei este parque, essas recordações de infância regressaram imediatamente.
Ao mesmo tempo, ao observar o crescente fluxo de turistas que procuram o Namibe, percebi que este investimento correspondia a uma necessidade real.
Foi essa combinação entre memória afetiva e oportunidade turística que me levou a abraçar o projeto.
Descobri o parque quase por acaso. O então governador convidou-me para apoiar uma atividade que ia decorrer no Parque de Campismo. Ao entrar, percebi de imediato que o espaço estava bastante abandonado.
A imagem que me veio à mente foi a de um “Ferrari sem combustível”: tinha potencial, mas estava parado há anos. Perguntei se havia possibilidade de concessionar o parque e fui informado de que poderia apresentar um pedido formal.
Apresentei o projeto e, cerca de um ano depois, foi-me atribuída a exploração do parque para requalificação.
A maior dificuldade não foi técnica, mas sim burocrática. O primeiro processo de cedência foi muito rápido, com contrato assinado e apoio direto do governador e do administrador, ambos interessados na rápida recuperação do parque.
No entanto, cerca de oito meses depois, uma associação da sociedade civil do Namibe contestou a cedência, alegando que deveria ter havido concurso público. O contrato foi rescindido e o parque colocado em concurso durante um ano — sem que surgisse qualquer interessado.
Posteriormente, a administração voltou a contactar-me, afirmando não ter capacidade financeira para reabilitar o parque e questionando se eu estaria disposto a retomar o projeto. Reavaliei as condições, ajustei cláusulas e aceitei novamente. É nessa fase que me encontro agora.
Realizámos uma recuperação profunda do edifício principal, construído em 1974, cuja estrutura se mantém sólida. Renovámos canalização, esgotos, pinturas, decoração e reorganizámos os espaços.
O parque conta com receção, escritório, casa do gerente, lojas, quartos, cozinha comunitária, bar tradicional, balneários, lavandaria, restaurante e casa do pessoal. Toda a infraestrutura base foi recuperada para funcionar com dignidade.
No exterior, o parque dispõe de cinco zonas de campismo, piscina natural, salão multiusos, zona náutica com canoas e embarcações de recreio, além de uma extensa e belíssima praia mesmo em frente ao parque — um privilégio raro.
Construímos também novos quartos em powapik (os nossos “quimbos”) e recriámos a sanzala,com um txoto tradicional, que será um espaço de interpretação cultural, permitindo ao visitante conhecer costumes do sul de Angola, gastronomia e tradições locais, sempre com acompanhamento de guia.
O trabalho paisagístico foi reforçado com árvores frutíferas — mangueiras, laranjeiras, limoeiros, videiras — criando sombra, alimento e uma ligação direta com a natureza.
A comunidade local e o governo têm apoiado o projeto. O governador visita regularmente o parque, acompanha as obras e demonstra interesse pelo progresso.
A maior dificuldade continua a ser o acesso ao financiamento bancário. Trabalhamos essencialmente com fundos próprios, o que torna o processo mais lento. Ainda assim, empresários locais reconhecem o esforço e incentivam a iniciativa.
Mesmo antes da abertura oficial, já sentimos a procura. Muitos turistas chegam ao parquediariamente, o que demonstra a carência deste tipo de oferta.
O campismo oferece descanso, segurança e proximidade à natureza, com investimentos mais acessíveis do que a hotelaria tradicional, respondendo exatamente ao perfil de quem viaja pelo sul do país.
A mensagem é clara: é preciso coragem para fazer. O campismo não exige investimentos gigantescos e Angola tem condições naturais únicas.
Com mais união, parcerias, redes de campismo e incentivos reais — como isenções fiscais iniciais — podemos transformar o campismo num dos pilares do turismo nacional, beneficiando empresários, comunidades e o próprio país.
Disponível todos os dias das 08h00 às 22h00. Permite esclarecer dúvidas, apoiar reservas e orientar na escolha das melhores opções de alojamento e serviços turísticos.