Baía dos Tigres

Baía dos Tigres

O que resta de uma povoação emblemática da colonização do sul de Angola: A BAÍA DOS TIGRES

Por entre dunas e mais dunas, a uns 80 km da foz do Cunene e do limite sul de Angola, uma ilha inesperada guarda aquilo que resta de uma antiga povoação erguida por ousados pescadores algarvios, que chegou a ser o centro piscatório mais importante da colónia, e que muito contribuiu para o avanço do distrito de Moçâmedes.Depois de décadas de abandono, após 1975, a Baía dos Tigres é hoje esqueleto de si mesma. Um espectro de edifícios semi enterrados no deserto a clamar ajuda, algumas pescarias abandonadas, outras tantas casas de habitação, uma esplendorosa Capela, uma escola, um posto sanitário, um hospital, uma delegação marítima , uma estação postal, grande número das quais construidas sobre pilares de cimento, em forma de palafita, para deixar passar os ventos fortes da garrôa que tudo cobriam à sua passagem. Um cenário verdadeiramente surpreendente!

As estruturas semi-enterradas da pequena povoação, fundada nos anos 1865, mostram-nos como era a povoação, dividida por uma única rua que era também pista de aviação. Em 1975 a Baía dos Tigres foi abandonada, e a povoação, isolada, sem água potável nem transportes, sucumbiu a um abandono definitivo.

A Baía dos Tigres foi pela primeira vez descrita em 1485, durante a segunda viagem de Diogo Cão às costas de Angola, a mando de D. João II. “Manga das Areias”, assim lhe chamou o navegador português. Mas a Baía dos Tigres como todo o sul de Angola, também tardou a ser ocupada, e apenas em 1865 foi pela primeira vez pisada por pescadores algarvios, numa altura em que em Moçâmedes já havia arrancado desde 1849 a colonização com colonos vindos de Pernambuco (Brasil), voltados para a agricultura nas várzeas do Bero e do Giraúl, centrada na cultura da cana sacarina e no algodão.

Foram tripulantes de navios baleeiros americanos que operavam no Atlântico Sul, entre Angola e a Ilha de Sta. Helena, e que visitavam com frequência a Baía dos Tigres, onde pescavam, que os alertaram os pescadores algarvios de Porto Alexandre sobre a fartura de pescado daquelas águas frias e ricas de vida marinha, Os mesmos baleeiros que em Moçâmedes iam fazer aguada, ou seja, iam abastecer-se de água e adquirir alimentos frescos que e que passaram a negociar os produtos agrícolas e também marfim e gado bovino que vinham do sertão. (Vem daí o nome de "Aguada" dado àquela zona da cidade de Moçâmedes, próxima das várzeas do Bero.)

E assim nasceu a povoação da Baía dos Tigres, cuja única razão de ser era a actividade piscatória, favorecida pela abundância de peixe, relacionada com a constante subida das águas das profundezas (upwelling), frias e muito ricas em plâncton, factor que se sobrepôs a todos os condicionalismos que impunham as maiores dificuldades à presença humana. Não foi por acaso que os ingleses chamaram à Baía dos Tigres, Great Fish Bay (Grande Baía de Pesca). Para além da grande quantidade de pescado, e dos animais marinhos que por ali proliferam, de entre os quais abundantes tartarugas, a Baía dos Tigres é riquíssima em espécies de aves que ali nidificam.

E quanto à designação "Baía dos Tigres"... Porquê? Se na realidade ao longo dos 35 km da ilha, com dez km de largura, não há notícia de um único tigre? E ao que parece, nunca houve!

São várias as teorias sobre a origem do nome da Baía dos Tigres. Algumas aventam que o nome Baía dos Tigres foi inspirado nos fortes ruídos causados pelo vento que sopram a sul da baía, semelhantes ao uivo de um animal, resultante do efeito do movimento das areias das dunas impulsionadas pelos ventos fortes que fustigam a Baía, agora transformada numa Ilha. Outras apontam para os jogos de luz e de sombras que nas areias se refletem vestindo-as de uma pele listada, similar às dos tigres. Ainda outras referem que o lugar estava infestado de hienas listadas e de cães selvagens hábeis em pescar em matilha, que teriam sido confundidos com tigres. Há ainda a teoria das focas, os “tigres do mar”, que ali passam à boleia das águas gélidas vindas do sul.

Uma deslocação por terra à Baía dos Tigres era uma verdadeira aventura que só espíritos ousados eram capazes de experienciar. Este texto colocado na net por um conterrâneo não identificado, mostra bem como era vivida essa aventura:

"São dunas e mais dunas, um mar de dunas até à baía dos Tigres. Um mar imenso a bombordo que abalroa de frente com a vastidão do deserto a estibordo numa toada que parece de choro sofrido e repetido. Umas vezes avança-se a patinhar na água e outras voando na crista das dunas. Com os pneus meio vazios cavalgamos o tempo numa luta insistente e teimosa contra as vagas de areia solta. Como um veleiro no mar alto a cavar ondas sem parança. Não vemos vivalma. Apenas um garajau tonto e desorientado, perdido da sua costumeira rota. E restos de velhos navios que o mar piedosamente sepultou na praia. A espuma deste oceano, soprada pelas ondas, adormece e morre na areia. Esta terra não foi feita nem para gente nem para bichos. Só o vento consegue viver aqui. E mesmo assim o seu queixume é constante e bastas vezes violento. Há quem diga que a denominação Baía dos Tigres se deve ao ruído enervante de fera molestada que o redemoinhar da areia provoca no cone superior das dunas. O sol sente desejos de beijar o dia. O cacimbo cerrado faz-lhe frente, mas o astro vence-o transbordando para além do horizonte o seu vermelho fogo de paixão. Deita então a cabeça no mar e espreguiça-se por sobre as dunas. Como que a querer reanimar este fim do mundo onde nem o mais triste e solitário dos tigres resistiria. "

Entre o século XV e a data do povoamento daquelas areias, em 1865, cartógrafos navegadores assistiram à transmutação periódica que ali foi ocorrendo. Cartas e mapas de navegação de todo o mundo testemunham a transformação cíclica da restinga em ilha, e da ilha em restinga. A última vez que a Baía dos Tigres perdeu a ligação a terra firme foi em 14 de Março de 1962. Neste dia, contam testemunhas da época, uma forte calema com ondas de mais de dez metros rompeu o frágil cordão de areia que ligava a Baía dos Tigres ao continente e transformou a povoação numa ilha. E assim permanece até hoje. Por essa altura, deu-se a ruptura dos canais que traziam água doce desde a foz do Cunene até à Baía dos Tigres.

A Baía dos Tigres, ou melhor a Ilha dos Tigres, é hoje um lugar abandonado árido, salgado, fantasmagórico, um lugar sagrado em meio às dunas que não param de movimentar sob a força de ventos fustigantes que tudo cobrem à sua passagem . Um lugar apesar de tudo, fascinante, e cada dia que passa mais aumenta o risco do seu completo desaparecimento.

Muitas fotos foram retiradas daqui: http://www.livethejourney.co.za/…/ghost-island-ihla-dos-ti…/

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Alojamento:

Namibe Hoteis na Zona



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