Património profundo do Namibe
Poucos territórios em Angola guardam uma expressão artística tão singular quanto o Namibe. Entre Moçâmedes e Bentiaba encontra-se a arte Mbali, também registada como Mbari, uma tradição funerária que faz da memória um objecto artístico e que coloca esta região no patamar mais elevado da antropologia africana. Aqui, a arte não se limita a representar a morte: interpreta-a, ritualiza-a e devolve-a à comunidade como símbolo identitário.
A arte Mbali surge no século XIX, ligada aos quimbares ou mbalis, grupos profundamente marcados por intercâmbios atlânticos entre Angola e Brasil. Chegados ao sul angolano num tempo de grande circulação humana e cultural, muitos desses afro-descendentes vindos do Recife trouxeram linguagens visuais, práticas cristãs e formas tumulares que se fundiram com as cosmologias africanas sobre os antepassados. O resultado deste encontro não foi simples imitação: foi criação. O cemitério municipal, concebido nos moldes europeus, foi reinterpretado segundo lógicas locais, e desse cruzamento nasceu a gramática Mbali.
As cruzetas e estelas funerárias Mbali são feitas em pedra local, madeira esculpida ou cimento armado. Colocadas sobre as sepulturas cerca de um ano após a morte, cumprem três funções fundamentais: propiciar o espírito, identificar quem ali repousa e honrar a memória. Cada peça é biografia materializada. Rostos, animais, instrumentos de trabalho, bolas, cachimbos, até a representação da cobra que mordeu o falecido. Nada é decorativo, tudo é memória. Cada túmulo narra uma vida.
O cemitério de Moçâmedes é a grande galeria a céu aberto desta tradição. Ali, a variedade formal e simbólica é vasta: cruzes simples convivem com peças antropomórficas e escultura figurativa. Não se trata de ornamentação, mas de um sistema narrativo que transforma o cemitério num arquivo histórico-visual. Investigadores alertam, contudo, para a degradação de peças, a perda progressiva de exemplares e a urgência de inventário e preservação. A arte Mbali é património vivo, mas vulnerável.
Em Bentiaba, esta tradição assume ainda outra camada. A comuna, marcada pelo antigo presídio de São Nicolau e pela memória de presos políticos, guarda um cemitério Mbali onde a arte se cruza com dor e resistência. Ali sobrepõem-se memórias de escravatura, colonização, punição e violência recente. Visitar Bentiaba não é apenas contemplação estética, é contacto com um lugar que exige silêncio, respeito e escuta. É património sensível, memória que não pode ser reduzida a ponto turístico, mas sim enquadrada com contexto e mediação.
O interesse académico sobre Mbali tem crescido, sobretudo em torno das peças que foram retiradas do país e hoje integram colecções europeias. Discute-se restituição, musealização e os impactos que o afastamento deste património tem para as comunidades que o produziram. Em paralelo, artistas contemporâneos do Namibe voltam a usar as cruzetas como referência criativa, provando que Mbali não é tradição encerrada no passado, mas repertório que continua a gerar pensamento, crítica e expressão.
Há temas que pertencem a um povo e ao mesmo tempo pertencem ao mundo. A arte Mbali é um deles. O Namibe guarda uma das mais poderosas manifestações escultóricas ligadas à memória dos mortos em África. Protegê-la é dever patrimonial, estudá-la é responsabilidade histórica, valorizá-la é gesto de reconhecimento perante um território que, silenciosamente, conversa com séculos de dor, devoção e beleza.