Nas encostas húmidas do Cuanza Sul sobrevive uma floresta extraordinária, habitada por algumas das aves mais raras de Angola e por um pequeno primata nocturno que recebeu deste lugar o seu nome científico.
A Floresta da Cumbira é um dos grandes tesouros naturais do país, mas também um dos mais vulneráveis.
Ao amanhecer, antes de a luz atravessar completamente as copas das árvores, a Floresta da Cumbira desperta através dos sons. Entre a vegetação densa ouvem-se aves que existem apenas em Angola, enquanto pequenos animais se movimentam discretamente entre os ramos, as folhas e as antigas plantações de café.
Durante a noite, um pequeno primata de olhos grandes percorre a floresta e comunica através de uma vocalização em crescendo. É o gálago-da-Cumbira, uma espécie reconhecida formalmente pela ciência apenas em 2017 e cujo nome científico ficou para sempre associado a esta floresta angolana.
Localizada na região da Gabela, nas proximidades do município da Conda, na província do Cuanza Sul, a Cumbira integra as chamadas florestas da escarpa angolana. Estas formações constituem um dos ecossistemas mais importantes do país para a conservação da biodiversidade, devido à concentração de espécies endémicas e à reduzida dimensão das áreas onde muitas delas conseguem sobreviver.
Uma floresta tropical isolada na escarpa de Angola
A escarpa angolana é uma extensa zona de transição entre a faixa litoral e o planalto central. As diferenças de altitude, temperatura e humidade permitiram que, em determinados pontos, se desenvolvessem manchas de floresta tropical rodeadas por ambientes mais secos.
A Cumbira é uma dessas manchas. Os estudos botânicos descrevem-na como um fragmento isolado de vegetação com afinidades ao bioma guineo-congolês, a grande região florestal que ocupa parte da África Central e Ocidental.
O seu isolamento relativamente a outras florestas criou condições muito particulares. Ao longo de milhares de anos, algumas populações de animais e plantas permaneceram separadas, favorecendo o aparecimento de espécies com distribuições reduzidas e características próprias.
A Cumbira não é, porém, uma floresta totalmente contínua e intacta. A sua paisagem é actualmente formada por um mosaico que inclui:
• manchas de floresta mais conservada;
• floresta secundária e vegetação em regeneração;
• antigas plantações de café;
• campos agrícolas e áreas anteriormente cultivadas;
• linhas de água, vales húmidos e zonas de vegetação densa.
Num levantamento botânico publicado em 2016, os investigadores identificaram quatro tipos principais de vegetação e recolheram mais de uma centena de espécimes de plantas com flores ou frutos. O estudo revelou dois novos registos de plantas guineo-congolesas para Angola, um novo registo de género no país e vários exemplares cuja identificação exigia investigação adicional.
Estes resultados não significam que existam apenas cerca de cem espécies vegetais na Cumbira. Representam aquilo que foi possível recolher durante uma campanha científica limitada. A verdadeira diversidade da floresta deverá ser consideravelmente superior.