CULTURA, AMBIENTE E TURISMO: O que se pode esperar do novo Mega-Ministério?

CULTURA, AMBIENTE E TURISMO: O que se pode esperar do novo Mega-Ministério?

Crónica de Opinião Por:   José Neto Alves Fernandes


"CULTURA, AMBIENTE E TURISMO: O que se pode esperar do novo Mega-Ministério?

PONTO PRÉVIO: 

No dia 11 de Novembro de 2018, nesta mesma tribuna virtual, defendi a fusão de distintos departamentos ministeriais. Não foi nenhum achado científico. Vários consultores, analistas e escribas de diferentes tendências já tinham defendido posições semelhantes. Mas eu tive o atrevimento de idealizar e fundamentar o mega-ministério que acaba de ser constituído. Nutro um grande respeito pelos ambientalistas que defendem, com argumentos bastante sólidos, a total autonomia do ambiente, por se tratar de um pelouro transversal e incontornável. Contudo, quero crer que, pela mesma razão, no actual contexto de crise económica que se tem agudizado desde 2014, atingindo presentemente proporções depressivas, se quisermos realmente impulsionar, a médio prazo, novos negócios geradores de divisas e de milhares de empregos, temos de começar a projectar o “day after” do turismo, assente em políticas ambientais cientificamente sustentadas, sem perder de vista a pluralidade cultural e as ricas tradições dos povos da nossa terra. É verdade que o turismo é dos sectores mais penalizadas pela pandemia da Covid19. O colapso da aviação civil e o abrupto despovoamento das principais instâncias turísticas, em todas as latitudes, esvaziam as projecções mais optimistas. São perdas monumentais que ultrapassam largas centenas de biliões de dólares. Mas o fim do mundo não é aqui, nem é agora. Por isso, tão logo seja ultrapassada esta pandemia mortífera, a indústria do turismo será seguramente resgatada, numa acção concertada entre governos,  empresas, organismos internacionais e associações ambientalistas. E os angolanos, com todo o potencial da terra e do firmamento, não podem ficar à espera de ordens superiores para mudarem de mentalidade e inaugurarem uma nova era. Tudo isso só será possível com uma nova abordagem revestida de seriedade, humilde e capacitação permanente para se atingir a necessária sofisticação, interiorizando as melhores práticas da região e do mundo, sem as politiquices nem os improvisos e as negociatas do costume, que desmoralizam os especialistas, desvirtuam a criatividade e afugentam os investidores.




1. O FOCO:

Cultura, Ambiente e Turismo podem constituir o tripé ideal para a muito propalada mas pouco conseguida diversificação da economia. Senão vejamos: o que realmente atrai milhões de turistas dos quatro cantos do mundo aos grandes portentados turísticos do continente, como a África do Sul, a Namíbia, o Botswana, as Ilhas Maurícias, a Zâmbia e o Zimbabwe, assim como o Quénia, o Egipto, o Marrocos e tantos outros? Nada mais nada menos que pacotes turísticos de excelente qualidade em instâncias de alto padrão, mas sem betão, amigas íntimas da mãe natureza, com serviços requintados, prestados por profissionais altamente qualificados, que irradiam a cultura e a hospitalidade típica das comunidades locais. Trata-se de uma expertise que engrandece o potencial da fauna e da flora, as paisagens de rara beleza, a história, a cultura e as tradições das povos. Neste particular, acrescenta-se o rigor no saneamento básico, além de comunicações fiáveis e redes sanitárias com capital humano e equipamentos à altura de qualquer emergência. É por isso que os turistas do século XXI não hesitam em gastar todos os anos milhões de dólares, libras, yens, yuans, francos suíços e rands para se deleitarem com o canto dos pássaros na frescura das manhãs tropicais, o pôr do sol na savana africana, os animais possantes e elegantes em plena liberdade, as danças sedutoras ao som do batuque contagiante, os trajes exóticos e as iguarias com condimentos afrodisíacos, os rios e lagos que lavam a alma de soberanos e vassalos, e as mil e uma noites de céu rendilhado por estrelas indecifráveis. Angola tem tudo isso e muito mais porque foi abençoada com 1650 quilómetros de linha de costa que proporciona praias deslumbrantes e marés disponíveis para todo o tipo de desportos náuticos, incluindo audaciosas aventuras subaquáticas. Mas, afinal, o que falta? Falta a seriedade, a humildade, a capacitação e a sofisticação sugeridas no ponto prévio, sem os improvisos e as negociatas do costume. Não é possível fidelizar bons turistas praticando preços exorbitantes que contrastam com a quase total ausência de qualidade. Adiantemos. Mais cedo do que tarde, o turismo, sendo um dos maiores empregadores à escala planetária, poderá reerguer-se das cinzas, qual fênix do terceiro milénio. 


2. O STATUS QUO:

Os criadores, os investigadores e as populações autóctones só poderão sair da situação de penúria em que se encontram se estiverem no centro dos investimentos. O governo precisa de abandonar de uma vez por todas a visão folclórica da cultura nacional, que tem sugado milhares de milhões do OGE sem nunca ter conseguido patentear as marcas de Angola nas principais galerias do continente. Basta olhar para os museus nacionais e provinciais, depauperados ante a indiferença de quem tem poder e a impotência de quem conserva o saber. Os monumentos e sítios votados ao abandono. Os ritmos e as danças tradicionais reduzidos a meros auxiliares do kuduro. Em quase todas as temporadas, o ambiente cultural revela-se poluído, autografado pela pirataria e laureado de falsidades. Um cenário que se torna assustador com a falência do saneamento básico, fatalmente crónico nas áreas de influência da maioria dos fazedores de cultura. 


3. A VISÃO: 

A titular do novo mega-ministério poderá marcar o ponto de partida para um debate inadiável sobre a influência da cultura na relação da sociedade com o meio ambiente. Até que ponto a preocupação de vários grupos, formais e informais, apostados na protecção das espécies ameaçadas da fauna e da flora, no reaproveitamento dos resíduos ou no resgate dos valores morais e cívicos pode ou não determinar um traço cultural? Há estudiosos que defendem uma correlação interessante entre as principais dimensões culturais de uma determinada comunidade e a eficiência ecológica das suas actividades. Em todo o mundo, consolida-se o traço de união entre ecologistas e celebridades da música, do cinema, da literatura e da moda. As igrejas assumem a defesa do meio ambiente como um dever de sacerdócio. Os governos e as empresas nunca foram tão pressionados. E quem mais levanta a voz em defesa do planeta, além dos próprios ambientalistas? São os arrebatadores de óscares e grammys, os prémios Nobel, os apresentadores das principais cadeias de televisão, os colunistas dos jornais de maior circulação, enfim, homens e mulheres da ciência, das artes e do showbiz. Repare-se na perícia dos artistas angolanos que nestes tempos difíceis têm acalentado milhares de famílias com canções inspiradoras sobre as medidas preventivas para conter a propagação do novo coronavírus. É a cultura nacional em perfeita sintonia com a saúde pública, contribuindo para a descontaminação do ambiente. Esta abordagem descomplexada deverá ser desencadeada pela Ministra da Cultura, Ambiente e Turismo. Bióloga e investigadora tarimbada em expedições inéditas pelos confins da terra, ela já tem as suas impressões digitais na descoberta de novas espécies até então desconhecidas pela ciência, tendo granjeado reconhecimento internacional. Muitos gostariam de vê-la a dirigir o projecto Okavango-Zambeze, KAZA, a maior área transfronteiriça de conservação do mundo, com mais 440.000 km2, envolvendo cinco países: Angola, Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe. Este seria certamente o seu habitat. Mas a nova ministra terá percebido, mesmo na flor da juventude, que o estudo da vida selvagem não se resume a florestas e animais. Há  também pessoas humanas, povos organizados em comunidades dispersas que, apesar de não constarem das estatísticas oficiais, têm cultura e conhecimentos que lhes conferem habilidades e instrumentos para que possam aprimorar uma série de técnicas e normas de cumprimento obrigatório. Só assim conseguem despistar os mais temíveis predadores, sobrevivendo a todas as intempéries. As expedições científicas em que a Ministra estreante foi protagonista permitiram-lhe decifrar os códigos de uma Angola que não aparece nos telejornais, mas que guarda em si mesma uma riqueza superior a todos os poços de petróleo. 


4. A MISSÃO:

Questiona-se, não sem razão, as limitações da mais nova auxiliar do Titular do Poder Executivo no domínio de procedimentos administrativos e técnicas de gestão. É possível. Contudo, tendo como secretárias de estado duas especialistas que foram ministras dos respectivos pelouros (espera-se que a coabitação seja civilizada), a titular do mais complexo departamento ministerial deverá potenciar-se com uma equipa constituída por técnicos com formação diferenciada em áreas estratégicas, valorizando os quadros mais capacitado dos três sectores (e não são poucos) e expurgando o gabinete dos vícios acumulados ao longo dos tempos (são mais que muitos). Paralelamente à adequação da arquitectura jurídica dos três eixos estruturantes aos novos desafios do momento, torna-se imperiosa a retirada do Estado das funções de operador, reservando-lhe o papel primordial de regulador e fiscalizador para que possa conceber e liderar uma nova estratégia de saneamento básico, legislando e mobilizando o sector privado para a gestão sustentável dos resíduos. Que se proclame sem mais demoras a verdadeira economia circular. Não há mais nada para inventar. Especialistas nacionais não faltam. E os bons exemplos de outras latitudes são abundantes. Só assim será possível  gerar bons negócios para as famílias e, sobretudo, para os jovens, articulando a produção e a promoção cultural, nas suas múltiplas dimensões, com a gestão dos parques nacionais e áreas de conservação, criando roteiros turísticos que envolvam as comunidades autóctones, os agentes culturais, os investigadores e os investidores, sob a “umbrela” de um pacote legislativo moderno e consensual. De resto, com os conhecimentos adquiridos, a sensibilidade e a mundividência que lhe são características, tendo plena consciência de que governar é comunicar e saber ouvir, unindo sinergias e prestando contas em tempo útil, não será nenhuma “missão impossível” para a nova  Ministra manusear com destreza o tripé inovador que sustenta o ponto de intercepção entre a Cultura, o Ambiente e o Turismo, em perfeita sintonia com os parceiros locais e internacionais.


5. O RUMO:

Dados divulgados pelas Nações Unidas, União Europeia e OCDE indicam que a pandemia do coronavírus deve causar perdas de 1 trilhão do dólares à economia mundial. A União Africana adverte que a pandemia poderá destruir cerca de 20 milhões de empregos em África, penalizando seriamente países dependentes do petróleo e do turismo. A progressão da Covid 19 ameaça enterrar a globalização, encerrar as fronteiras e condicionar o livre comércio, forçando a refundação da cooperação internacional. Mas a humanidade já não se compadece com fronteiras opacas, nem com relações internacionais de costas viradas. As imagens de hospitais saturados, à beira do colapso, escolas, fábricas e restaurantes fechados e populações confinadas, atestam a grande vulnerabilidade das sociedades modernas. A maior lição proporcionada pelo novo coronavírus é que o comportamento de cada um tem impacto na humanidade e que a solidariedade é a única forma de vencer a pandemia. E esse ensinamento, no meio de tantas incertezas, é reconfortante. A cura dos traumas físicos, psicológicos e sócio-económicos provocados pela Covid 19 vai demandar terapias menos evasivas e mais amigas do ambiente. Muito embora, de momento, a prioridade das prioridades seja travar a todo o custo a propagação desta pandemia, que é infinitas vezes mais letal do que todas as armas convencionais, Angola precisa de se preparar para os desafios da nova ordem mundial, que determinará novos modelos de produção de alimentos e novas cadeias de distribuição, humanizando as novas tecnologias e estimulando a valorização de roteiros turísticos que proporcionem uma relação mais intimista e equilibrada entre o Homem e a natureza. Depois da crise actual, seria recomendável uma aposta séria na definição de uma estratégia para o ecoturismo, as indústrias criativas e o turismo de sol e praia patenteado na vasta linha de costa atlântica, abrindo espaço para a afirmação da economia azul em toda a sua plenitude.


A aposta deve abarcar de forma integrada a rica diversidade cultural e sócio-ambiental do país. Só assim será possível a correcta estruturação de produtos turísticos sustentáveis e de qualidade, propiciando a mitigação das assimetrias regionais. Com vontade política, dando voz aos especialistas e novas oportunidades aos empreendedores, sem desprimor para a cooperação internacional, a Cultura, o Ambiente e o Turismo poderão, a breve trecho, libertar Angola da crónica dependência do petróleo.


PONTO FINAL:

Fazer turismo sustentável exige muito respeito pelo meio ambiente e pela cultura local.


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