Lubango, Angola a bordo da TAP

Lubango, Angola a bordo da TAP

Uma viagem que é um regresso a casa. Há quem lhe tenha gabado “o ar tão fino como o de Sintra”. Nós acrescentamos ser um álbum de postais ilustrados e umas quantas maravilhas naturais.


António Luís é um homem alto, magro, com um bigode ralo sobre os lábios que se abrem num sorriso franco, mesmo quando ainda não sabe quem sou. Move-se muito devagar, na fragilidade dos seus 85 anos, pelo quintal em redor da casa construída há mais de quatro décadas, nos últimos anos de um outro tempo. Chegámos aqui ao fim de duas horas, seguindo instruções baseadas em lembranças esbatidas de uma terra abandonada à pressa. O caminho de regresso descodificado entre a memória de casas soltas, caminhos de pedra, nomes que chegavam por mensagens entre dois continentes e o confronto com a realidade de um bairro engolido por êxodos rurais, refugiados da guerra civil e a construção de anexos e quartos para filhos que nasceram já em paz. Procurar o Bairro João de Almeida, virando à esquerda na rotunda à saída da cidade, procurar a escola de sargentos, a antiga comarca… Vamos andando e perguntando, para perceber que nem os mais velhos aqui nasceram. Falamos com quem veio durante a guerra à procura de paz e recebemos indicações contraditórias. É por ali. Não, é por aqui. Acho que há umas casas mais à frente. Não sei. Não conheço. Acabamos por perceber que estamos no sítio errado e que o que procuramos, se ainda existir, fica a nordeste, na estrada velha de Benguela. Agora parece fácil, encontramos a escola, a comarca há de estar perto. Perguntamos a quem encontramos se conhecia o Francisco Saraiva, meu avô. Ninguém conhece: “Nunca ouvi falar”, “Moramos aqui desde 1980”, “Mudámos há dez anos”.

Quase desistimos quando alguém nos diz que “o pai António talvez se lembre”. Teresa veste o casaco e leva-nos por ruelas estreitas de chão irregular. Há miúdos a brincar, mulheres que manejam uma bomba de água. António Luís não demora a situar-me. Há um genuíno contentamento em descobrir quem sou. Fala-me do meu avô, dos meus tios-avôs, do meu pai, fala tanto quanto a memória ainda permite. Chama Malita, 56 anos, sua filha, companheira de brincadeiras da minha tia, irmã do meu pai. “Só as árvores não se encontram”, diz Malita. Apesar do passo inseguro, António leva- -nos à casa onde morei no meu primeiro ano de vida, a mesma onde um ano antes nasceu a minha irmã, diz-nos que o furo que alimenta a bomba de água foi aberto pelo meu avô. Pouco resta, além da pedra das casas e da memória de António e Malita. Mesmo assim, há um sentimento de pertença que emerge e me faz sentir que cheguei a casa. Foi aqui que nasci.

Durante anos, Lubango foi apenas o nome que usava para preencher o espaço destinado ao local do meu nascimento em documentos oficiais. As memórias, essas, encaixavam-se numa outra denominação: Sá da Bandeira, nome repetido nos almoços de família, sinónimo de uma outra vida, expressão a saber a uvas, laranjas e melões que a terra dava, a lembrar ponto de partida para tantas aventuras contadas sempre como se fosse a primeira vez. Finalmente Lubango e Sá da Bandeira fundem-se numa só. A cidade das fotografias a preto e branco e os postais de cores sépia ganha substância em madrugadas gloriosas, no cheiro de dias quentes, em pores do sol como apenas África sabe pintar.

Começamos pelo centro, percorremos a pé as ruas de uma cidade onde é fácil circular, graças a ruas e passeios largos. Cruzamo-nos com mamãs zungeiras que carregam alguidares coloridos, equilibrados sobre a cabeça contra todas as probabilidades. Vão cheios de tudo o que se possa vender. Às costas, com largos panos coloridos, levam os filhos. O roxo dos jacarandás e o vermelho das acácias servem de enquadramento aos edifícios com assinatura portuguesa: a Livraria Lello, já fechada, os edifícios art déco do Cine-Teatro Arco- -íris, agora alvo de obras de recuperação, e da Rádio Nacional de Angola-Huíla, bem como outros mais antigos, como a sede do governo provincial, a primeira estação de comboios e os correios.

No dia seguinte, saímos da cidade e apanhamos boleia de Mateus para a Estação Zootécnica da Humpata, a caminho do Alto Bimbe. À saída da Humpata, a estrada de asfalto transforma-se em picada. Seguimos as marcas dos pneus de quem passou antes, às vezes nem isso. São precisas mãos experientes e firmes para fazer os cerca de 26 quilómetros que levam até a um dos deslumbrantes miradouros da região. A vista, o silêncio, a monumentalidade das escarpas do Alto Bimbe, valem cada salto, cada roda atolada, valem tudo. São mais de 2300 metros de altitude, capazes de fazer inveja à Fenda da Tundavala, no planalto sul. Uma pausa para descansar o corpo e repetir expressões consecutivas de deslumbramento, perante o sorriso de alguns miúdos que por ali pastoreiam cabras e cabritos.

Fazemos o caminho de regresso à Humpata, paramos no mercado para comprar lanternas, e seguimos em direção às grutas de Tchivinguiro. Entre a estrada do Caholo, em excelente estado, e as grutas, há uma picada difícil, onde por vezes é preciso fechar os vidros e recolher os espelhos, o carro passa à justa. A certa altura paramos durante cinco minutos para deixar passar uma manada de vacas. Mas na Huíla tudo acaba por compensar. Mário é o guia designado pelo Soba para nos mostrar as grutas, que se prolongam por quilómetros. “Lá ao fundo há uma sala de conferências com mais de 1300 pessoas. Uma coisa grande, grande”, diz o administrador comunal do Caholo. Há várias histórias sobre o tamanho das grutas, histórias de quem tenha entrado às sete da manhã e saído quase dez horas depois e que mesmo assim “desconseguiu de encontrar o fim”. Há sítios que obrigam a rastejar, outros em que só se anda de lado. À entrada da gruta, miúdos saltam para a água que vem das profundezas da terra e se acumula num lago ali em frente, enquanto um lagarto cachucho, azul, branco e laranja, se refastela ao sol nas rochas.

No último dia, subimos à Tundavala. Do miradouro que nos separa de um precipício com cerca de mil metros, deveríamos avistar a planície de Bibala, a norte, mas o microclima do Lubango, com temperaturas amenas durante todo o ano, pode pregar partidas. Da Bibala avança uma frente de nevoeiro que ameaça cobrir tudo. A caminho do Namibe temos mais um ponto de paragem obrigatória. O miradouro e a estrada da Serra da Leba. Nada nos prepara para esta visão. Uma serpente de asfalto sobe no dorso da serra. Lembro-me das palavras de Austino Muámpatchi, responsável pela cultura na Humpata: “Deus não quis que tivéssemos contacto com o mar, mas fomos e furámos a serra”.

Fonte: UP MAGAZINE  por Hermínia Saraiva /// fotos Tiago Figueiredo


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